Tanto o senso comum como arquitetos recém formados ou pouco informados, caem na armadilha de acreditar que arquitetura se traduz em espaços limpos, limpíssimos, sofisticados, descolados, brilhosos, intocáveis e arrumados. Quanto engano: se esquecem que ali acontecerão relações humanas imperfeitas, o ser humano mesmo negando-se nasce solto, simples, informal.. nos sentimos melhor em espaços informais, livres. Diferente da artificialidade nas casas e lojas “sofisticadas” ou das sedes intimidadoras de algumas empresas.
Lembre-se da casa gostosa do avô, de um amigo gente boa, podia não ter os móveis mais caros, não ser a mais arrumada, mas é a que você gostava de estar, que podia ser você mesmo, sem os teatros de representação e falsas aparências. Claro que essa atmosfera depende principalmente das pessoas envolvidas mas o espaço também influencia muito nessas percepções e sentimentos.
Para ilustrar:
CASAS MODERNAS
Camisa de Vênus
Essa é a minha casa, esse é o meu lar
Através do olho mágico alguém a buzinar
Da minha casa eu vejo o mundo
Vejo a cidade crescendo ao fundo
Imponente símbolo de decadência
Grande avanço da nossa ciência
Orgulho da nossa industria
Cicatrizes da nossa industria
Vivemos em casas modernas, arquitetura segura e eterna
Vivemos em casas modernas, arquitetura segura e eterna
O equilíbrio entre formas e cores
Demonstra uma perfeita simetria
Em minha casa eu tenho um quarto
Me tranco nele todos os dias
Maria Alice ela esta realizada
Comprou uma casa esterilizada
Lá não nasce planta, não nasce bicho
Não nasce gente, não nasce nada
Vivemos em casas modernas, arquitetura segura e eterna
Vivemos em casas modernas, arquitetura segura e eterna
Deus abençoe as casas modernas
CASA ARRUMADA
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida…
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto…
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia. Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias…
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
E reconhecer nela o seu lugar.
Um exemplo: coisa de gente!
Imagens da casa do antropólogo Darcy Ribeiro projetada pelo seu amigo Oscar Niemeyer. Este projeto sempre me interessou, primeiramente por ser uma escala incomum em se tratando de Niemeyer (não é algo monumental, somente uma pequena casa) e principalmente pela singeleza e qualidade espacial.
É uma casa a beira mar no município de Maricá/RJ, sem ostentação e supérfluos mas com inegável qualidade ambiental em implantação, vistas etc. É do tamanho que o uso requer, diferente das consideradas “casas de arquiteto” que mais parecem hotéis ou moNstruários de vidros, granitos, mármores, etc.
Note a espontaneidade do uso, do contexto, sem o mínimo vínculo com necessidade de status ou aparência. A casa esteve abandonada após a morte do Darcy mas a prefeitura restaurou-a e hoje é um lugar aberto a visitação batizado “Casa Darcy Ribeiro”. Em tempos de exaltação e culto ao Ego é sempre bom resgatar atos e atitudes de Gente, viver mais que aparecer.





